Montar um ponto de recarga na garagem de casa custa entre R$ 4.500 e R$ 13.000 entre equipamento e instalação. A energia de uma carga completa custa entre R$ 30 e R$ 70. É a distância entre esses dois números que decide se a sua garagem vira renda extra ou vira prejuízo silencioso — e a conta é mais simples do que parece.
A situação é cada vez mais comum: motorista de aplicativo com carro elétrico e sem garagem própria, morador de condomínio sem infraestrutura, gente que precisa de um lugar seguro pra deixar o carro carregando à noite. Do outro lado, uma garagem residencial com energia adequada, parada boa parte do dia. Esse espaço pode virar receita — desde que a conta seja feita antes do primeiro cliente.
Sim, você pode cobrar: a regra da ANEEL que quase ninguém conhece
A dúvida que trava a maioria das pessoas é se é legal cobrar de terceiros pela energia da própria casa. A resposta está na Resolução Normativa nº 819/2018 da ANEEL: o artigo 9º permite expressamente a recarga de veículos de propriedade diferente da do titular da unidade consumidora, inclusive para exploração comercial, a preços livremente negociados. Ou seja: você define o preço, e não existe tarifa regulada pra isso.
Há uma contrapartida no artigo 3º da mesma resolução: se a instalação exigir aumento de carga, troca do padrão de entrada ou alteração do nível de tensão, ela precisa ser comunicada previamente à distribuidora. Não é burocracia opcional — é o que separa uma instalação regular de um problema com a concessionária e com o seguro da casa. Confirme com um eletricista habilitado o que o seu caso exige antes de comprar equipamento.
Resolvida a parte legal, sobra a parte que decide o negócio: os números.
Quanto custa a energia que você vai revender
A bateria não recebe exatamente a mesma energia que sai da tomada — parte se perde em forma de calor. Um carro cuja bateria precisa de 30 kWh costuma consumir de 33 a 35 kWh no medidor da casa, uma perda de 10% a 15% dependendo do carregador, da temperatura e do veículo. É essa margem que separa a estimativa otimista do valor real da fatura.
O valor que a concessionária cobra por kWh já inclui tarifa, impostos, encargos e a bandeira do mês — não dá pra usar só o número anunciado. A conta confiável é uma só: valor total da fatura (descontando a taxa de iluminação pública) dividido pelo consumo em kWh. O resultado é o custo real de cada kWh na sua casa, normalmente entre R$ 0,80 e R$ 1,30.
Usando R$ 1,00 por kWh como referência e 10% de perda, esses são os valores por modelo:
| Modelo | Bateria | Custo da carga pra você |
|---|---|---|
| Renault Kwid E-Tech | 26,8 kWh | ~R$ 30 |
| BYD Dolphin Mini | 38 kWh | ~R$ 42 |
| BYD Dolphin | 44,9 kWh | ~R$ 49 |
| GWM Ora 03 | 58 kWh | ~R$ 64 |
| BYD Yuan Plus | 60,5 kWh | ~R$ 67 |
São valores de referência: estado com energia mais barata gasta menos, bandeira vermelha gasta mais. Se você quer a conta completa da recarga em si — por km rodado, comparada com gasolina —, ela está detalhada em quanto custa carregar um carro elétrico no Brasil em 2026. Aqui o foco é o outro lado do balcão: o que você gasta pra montar e o que pode cobrar.
Quanto custa montar o ponto de recarga em casa
Este é o número que some das conversas otimistas. O mercado de recarga residencial no Brasil já movimenta cerca de R$ 1 bilhão, puxado pelo salto de emplacamentos de eletrificados — cerca de 167 mil unidades só entre janeiro e maio de 2026. Com escala vieram preços mais claros:
| Item | Faixa de preço | Observação |
|---|---|---|
| Wallbox (7,4 kW a 22 kW) | R$ 2.500 a R$ 8.000 | Quanto maior a potência, menor o tempo de recarga |
| Instalação elétrica dedicada | R$ 2.000 a R$ 5.000 | Circuito, proteção e mão de obra habilitada |
| Adequação do padrão de entrada | Variável | Só em parte dos casos; exige aviso à distribuidora |
| Total realista | R$ 4.500 a R$ 13.000 | É esse valor que o preço cobrado precisa devolver |
Ignorar esses custos cria uma falsa impressão de lucro. Planejados desde o início, eles se pagam — mas precisam entrar na conta antes de definir qualquer preço.
Quanto dá pra cobrar e em quanto tempo o investimento volta
Como o preço é livre, a única regra que importa é não cobrar menos do que custa. A fórmula honesta tem três camadas: custo real do kWh na sua fatura, mais a perda do carregamento, mais a margem que remunera o equipamento e o desgaste. Um exemplo, usando R$ 1,00/kWh e 15% de perda:
- Seu custo por kWh entregue: R$ 1,00 ÷ 0,85 = R$ 1,18
- Preço com 40% de margem: ~R$ 1,65 por kWh
- Numa carga de 40 kWh: você gasta ~R$ 47 e cobra ~R$ 66 — sobram R$ 19 por recarga
Com uma recarga por dia útil, isso dá cerca de R$ 420 por mês de margem bruta. Sobre um investimento de R$ 7.000, o retorno vem por volta de 17 meses — sem contar manutenção e ociosidade. Com duas recargas por dia, cai pela metade. Com uma por semana, passa de seis anos e a ideia não fecha.
É por isso que a demanda da sua região manda mais que o equipamento: o mesmo wallbox pode se pagar em um ano ou nunca. Antes de investir, vale responder com sinceridade:
- Existe procura por vagas com recarga na sua região — condomínios sem estrutura, motoristas de aplicativo na área?
- Sua garagem fica vazia boa parte do dia ou da noite?
- A instalação elétrica comporta um carregador com segurança, segundo um eletricista habilitado?
- Você já fez a conta de quanto custa instalar, e não só de quanto rende por recarga?
Se a maioria das respostas for sim, a ideia merece estudo. Alugar um ativo parado é a mesma lógica de quem ganha dinheiro alugando a moto que fica na garagem: o bem já existe, o que muda é a decisão de colocá-lo pra trabalhar. E se o investimento inicial vier parcelado, vale simular antes se antecipar parcelas compensa assim que a receita começar a entrar.
Pra organizar o que entra e o que sai dessa renda — sem misturar com o orçamento da casa — a calculadora da regra 50-30-20 ajuda a separar as contas.
O que fica dessa conta toda
Carregar em casa custa pouco: de R$ 30 a R$ 70 por carga completa. Cobrar por isso é permitido e o preço é livre. O que decide o negócio não é o preço da energia — é o custo da instalação dividido pela frequência real de uso. Com demanda diária, o ponto de recarga em casa se paga em cerca de um ano e meio. Sem demanda, é um equipamento caro numa parede.
Perguntas frequentes
É legal cobrar para carregar o carro de outra pessoa em casa?
Preciso avisar a distribuidora de energia?
Quanto custa montar um ponto de recarga em casa?
Quanto posso cobrar por recarga?
Em quanto tempo o investimento se paga?
A recarga aproveita 100% da energia que sai da tomada?
Preciso abrir MEI ou emitir nota para receber?
Posso instalar em garagem de condomínio?
Fontes
- ANEEL — Resolução Normativa nº 819, de 19 de junho de 2018 (arts. 3º e 9º).
- Money Report — dados de mercado de recarga residencial e emplacamentos de eletrificados, junho de 2026.
- Faixas de preço de wallbox e instalação praticadas no mercado brasileiro em 2026.












